Não custa nada

O exercício de agradecer pelas dádivas diárias está se tornando parte da rotina do publicitário paulistano Lucas Jatobá, de 30 anos. Seu último agradecimento público foi no dia do seu aniversário, em agosto. Em vez de receber os parabéns, Lucas resolveu dizer obrigado aos moradores da cidade que fez sua vida melhor. Vivendo atualmente em Sydney, na Austrália, ele embalou 30 presentes que poderiam agradar a diferentes faixas etárias e os distribuiu para estranhos, em parques e ruas da cidade. "Queria comemorar de um jeito diferente", diz. "As pessoas ficaram impressionadas. Nunca imaginei ganhar tantos abraços, elogios e demonstrações de carinho de desconhecidos."





Desde que decidiu morar fora do Brasil, em 2006, Lucas tem sentido essa vontade de dizer obrigado pelas cidades que o acolheram. A primeira vez foi no começo de 2011, depois de 3 anos vivendo em Barcelona, na Espanha. Na hora de partir, sentindo-se grato por todas as experiências, pessoas e oportunidades que encontrou, decidiu que precisava retribuir. "Fui muito feliz por lá e queria dividir a felicidade não só com os amigos", conta. mas como agradecer a uma cidade inteira?


Pois ele encontrou uma maneira inusitada: amarrou 257 entradas de teatro a balões cheios de gás hélio e os soltou para que voassem pelos céus da cidade. "Queria que os destinatários fossem desconhecidos, escolhidos pelo vento", diz. Junto, mandou uma carta, onde explicava o presente caído do céu. "Eu acredito em um mundo mais altuísta, onde as pessoas são menos egocêntricas e mais preocupadas com a felicidade dos outros. Um mundo com mais amizade e respeito, que pode ser começado hoje,  se todos derem algo sem esperar nada em troca. Tomara que você goste do seu presente. Até mais, Lucas."


E o que era pra ser somente uma despedida gerou uma corrente de gratidão. Lucas postou o vídeo mostrando a iniciativa no site Youtube e, em três semanas, ele foi visto 500 mil vezes. Nove meses depois, ele segue recebendo e-mails de todo o mundo, que agradecem não só pelos ingressos, mas pela ideia criativa, que foi reproduzida por outras pessoas em vários países.


É com esse olhar pela vida que Lucas resolveu viver seus dias. "A gentileza e o altruísmo geram mais do que gratidão: promovem amor por todos e vontade de dividir", diz. E, mesmo sem esperar, há um retorno. "Descobri que, sempre que dou alguma coisa, ganho algo de volta."Nas filosofias orientais, ser grato não é apenas uma virtude desejável - é tão elementar quanto a própria vida. Afinal, a existência é uma vasta rede de interdependência e reciprocidade - e ninguém é autossuficiente. A gratidão profunda é a capacidade de apreciar as coisas comuns, de perceber que temos e somos o bastante. Ser grato às pessoas que caminham conosco nada mais é que uma forma de tentar viver a melhor vida possível.





Texto retirado da revista Sorria, vendida nas redes de drogarias Raia.

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